Conchas

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Nas conchas das minhas mãos
uma rosa indefinível,
a brisa silvestre, o perfume,
a relva de luz no quintal.
As noites brancas de lua,
vagido que vem da rua,
as nuvens rubras de sal.

Uma aurora raiada
um clarão abrindo o escuro.
Todo o desenho das flores
na aquarela do jardim.
Nas rendas que o amor tecia
do azul do mar exauria
um oceano sem fim.

Nas conchas das minhas mãos
um rio sem travessia.
Um cardume de esperança
luzindo em meio ao mar.
Nas ondas , meu corpo é bruma,
imponderável espuma
nas conchas de todo o olhar.

Marilia Abduani

Infância

Do tempo de criança só ficou saudade
e nacos de esperança que a infância traz.
O aroma doce e virgem da manhã raiada
O vento em meu rosto e toda a passarada
cabelo em desalinho ,eu tinha o pé na estrada
tinha fruta no pé, flores, canaviais.

O meu pai na batalha pra educar os filhos.
A mãe, casa e cozinha ou costurando em paz.
A velha melodia que inda bem conheço
nas noites de verão o violão, o apreço
seriam laços fortes desfazendo o avesso
o desatar de tudo que a idade faz.

O fio da meada trouxe um estranho canto.
Pelo vazio em mim estou despida e só.
Saliva o meu orgulho fustigando a sorte
distante e a deriva debandou meu norte
Ao descerrar ao sonho e fugir da morte
cessa o fluir do tempo e tudo vira pó.

Passou o tempo
Calou o violão.
Todo o sentimento
Da vida me restaram pucos fragmentos
Sou um potro galopando a minha
solidão.

Marilia Abduani

Cantar

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Quem quiser ouvir meu canto acrescente um verso.
Que rascunhe o meu compasso, faça o amor rimar.
Que atravesse a madrugada e durma de manhã.
A noite só termina quando clarear.

Quem quiser cantar comigo crie um tom a mais.
O refrão fica mais lindo e fácil de aprender.
O estribilho vem do encanto que a verdade traz
O tom da poesia pra quem nela crer.

Cante mais com o coração
deixe o amor iluminar.
Invisível, a tua canção
é o teu sonho a se realizar.

Marilia Abduani

Herança

A vida chega e passa apenas num segundo
E a barra do mundo é pra se segurar.
Apenas um sussurro,um suspiro fundo
no peito uma saudade teimo, em vão, guardar.

Eu deixo a minha infância em um baú guardado.
Abro ,de vez em quando, pra me resguardar
das velhas cicatrizes, da pele marcada,
da mesma antiga estrada por atravessar.

Viver é isso aí.
Há o tempo de chorar e de sorrir.
Viver é isso aí
Há o tempo de chegar e o de partir.

Eu deixo aos meus filhos o futuro ao lado
verdade inteira e todo o sabor de amar..
A luz que vem do sonho, do prazer sonhado
a garra, a vida, a força para se lutar.

A vida se reflete em nós a cada dia
no brilho que inda houver em flor a vicejar.
Na música, na flora , fauna e poesia
na mágica do dia que só quer raiar.

Viver é isso aí.
Há o tempo de chorar e de sorrir.
Viver é isso aí.
Há o tempo de chegar e o de partir.

Marilia Abduani

Luz e tom

Há quem queira ser
uma nota só.
Tom do amor em dó
nó no coração.

Quem não queira ver
desta vida o sal
entre o bem e o mal
luz sem direção

Mas há quem queira ter
a rima nas mãos
ser a criação
harmonia em ré.

Quem queira ser sol
do vento a lição
de soprar em mi
e de ouvir em lá
a nova canção.

Marilia Abduani

Mosaico

Há primavera no outono
e geleira no verão.
Há a amplidão na saudade.
Nas nuvens febris da tarde
O contorno da solidão.

O dia engolindo estrelas,
asas sonhadas ao vento.
As fissuras se desfazem
Distâncias que já não trazem
a expressão do sentimento.

Os sonhos toscos de barro
moldados pelo desejo
são pura arte estendida
na terra exata e bendita,
mosaicos de luz e beijo.

Polvilha o orvalho a alma,
tatua a flor a alegria.
Réstias de sol estendidas
nuances de nossas vidas,
desfecho de mais um dia.

Marilia Abduani

Lâmina

Quero animar a esperança
desalojar a incerteza.
Agonizar o meu medo
fertilizar meus segredos
restilhas de chama acesa.

A lâmina na esperança
separa o tempo sem lua
do tempo sem vento quente
antagonia presente
no espanto que vem da rua.

No incinerar da vingança
pauto o meu sexto sentido.
O tato do meu destino
a força do sol a pino
no calor do meu ouvido

Sinto o exato silêncio
das horas perenizadas.
vestígios de amor e gesto
e de meus rastros impressos
escombros de mim: mais nada.

Marilia Abduani

RAIZ

sábado, 30 de outubro de 2010

O tempo passa enquanto o verde se derrama
e faz a cama para a vida respirar.
E passarinhos anunciam que o dia chama
pra ser feliz e ser raiz a despertar.

O tempo para e a natureza silencia
numa magia que faz tudo levitar.
O vento varre a solidão e a nostalgia
e só poesia faz o corpo respirar.

Uma lagoa pra nadar todo o cansaço
num só compasso a vida se refaz em flor.
A terra e o céu unem o mundo num abraço
e todo espaço canta e a vida canta o amor.

Marilia Abduani

Harmonia

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A noite adormece sem usuras
a lua iluminando os sonhos meus.
A nossa história simples, sem rasuras,
lacunas que a verdade preencheu.

E, sem ferrugem, brilha o horizonte,
o céu em harmonia de néon
é beijo cristalino, água da fonte,
prenúncio, calmaria, tempo bom.

Na pauta dos meus olhos a alegria
sem dores, desconheço solidão.
Amor eu sou, a luz da estrela é minha,
meu canto no vislumbre do perdão.

A recriar do tempo a paz me ensina.
A alma se refaz em inspiração.
É a calma que transforma a vida em rima
no enlace da poesia e da canção.

E assim o mundo segue o seu compasso,
meus passos vão trilhando o amanhecer,
unindo o universo num abraço:
o orgasmo silencioso de viver.

Marilia Abduani-LETRA
Marcus viana-MÚSICA

Floração

A tua língua lambe a linha do horizonte
no contorno da saudade e sedução.
Pereniza o meu prazer e todo o instante,
aguça e atiça toda a criação.
Reescreve a geometria do universo
dilata a pupila da canção.
concebe sinfonias, rimas, versos,
antecipa dentro em mim a floração.

A tua boca mastiga o que eu vislumbro
converte em claridade a escuridão
a tua mão apalpa o meu ciúme
transforma o que é rascunho em inspiração.
E por tuas veredas, que são tantas,
teu rastro cede rumo à lassidão.
Gesto e tato ao alcance do meu faro.
Teu corpo faz de mim constelação.

Marilia Abduani

 
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