Voragem

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Entre claras nuvens


mais um dia finda


sobre a terra nua


é inverno ainda.


Lua despontada


do meu sonho e canto


luz da madrugada


eco de saudade


deságua em meu pranto.




Valsa desbotada


passos no deserto


sempre a mesma estrada


pelo espaço aberto.


Ata o meu destino


tempestade e areia


sol fremente, a pino,


onde a dor passeia.




Pelas densas nuvens


vai o sonho embora


na voragem crua


do fugir das horas.


O tocar do vento


pálido e sem fim,


fere o sentimento,


o vazio em mim.






-Letra-Marilia Abduani


Música:Tom de Minas

Galope

Eu sou um cavalo velho
no galope da ansiedade
pelas campinas cavalgo
campeio essa liberdade.
Aspiro com impaciência
o odor da mocidade
no cio ,sem estridência,
perfume da insanidade.

O sol ocluso me guarda
engedra pra eu me safar
aspira a minha linguagem
decifra o meu relinchar.
A noite, sombra profana,
me beija pra eu me acalmar.
O casco em meu orgulho
o cisto dentro do olhar.

Nos campos de luz me deito
a revelia do medo
no galopar do destino
eu busco o meu sol mais cedo
Cavalo forte e arredio
sem rédeas, divina tez,
alado, por ter vivido
e morrido mais de uma vez.

Marilia Abduani

Estações

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Ainda verão parece
na primavera do mundo
Saudade que não se esquece
no inverno, um suspiro fundo.

Por todo o sonho perdido
lembranças do que passou
O outono brota sem frutos
semente que não vingou.

Ainda verão parece
no tempo doido a escorrer
dos dedos da nossa história
na solidão do querer

As quatro estações da vida
sopraram nossa canção
saudade que não se mede
no escuro do coração.

Marilia Abduani

Um par de asas tristes.

domingo, 7 de novembro de 2010

Uma menina sonhava
poder tocar o arco-íris
e sentir as suas cores.
Ela, em sonhos, voava.
Em pensamentos, saltava,
por entre jardins e flores.

De carona num tapete
cruzava o azul celeste,
parecia primaveraa.
E todo o céu clareava,
a vida se iluminava
pela luz que vinha dela.

E ela subia, subia...
com um pássaro parecia
pelo azul do céu brilhante.
Sete cores ela via.
Uma estrela lhe sorria
na magia do instante.

A menina, iluminada,
só queria do arco-íris
um novelinho de cores.
Para bordar um vestido
lindo, multicolorido,
estampadinho de flores.

E foi subindo, subindo,
cruzando nuvens e o vento
a balançar seus cabelos
num compasso morno e lento.
Quase roçava o novelo,
firme em seu pensamento.

A natureza entendia
o desejo da menina
que andava suja, rasgada,
ruminando a sua sina.
E que sonhava, em segredo,
nos becos e nas esquinas.

O Arco-íris, comovido
pela luz que vinha dela
um novelo deu-lhe, então.
E além de bordar-lhe um vestido,
com as cores pintou "AMOR"
dentro do seu coração.

E a menina, que era triste,
ficou multicolorida.
radiante feito flor.
Nunca mais ficou na esquina
porque virou borboleta.
Voou...voou...voou...

Marilia Abduani.
Para Sara.

Serenatas

sábado, 6 de novembro de 2010

Eu ouço as canções antigas
de quando criança ainda,
acordes da madrugada
enchiam os meus ouvidos.
Canções serenas e lindas.

A lua por companhia
na quietude da praça.
Só vozes e instrumentos,
ao mais leve movimento,
enchiam a vida de graça.

Em meus olhos a harmonia
brilhava a cada cantiga.
Os dedos que dedilhavam
o violão que desfiava
a ternura eterna e antiga.

E até que o dia raiasse,
as vozes e a melodia
anunciando a manhã.
O desafio do pranto.
Hoje não há mais canto
na saudade temporã.

Marilia Abduani

RUMORES

No mais profundo silêncio
o espírito e o coração.
A glândula da alegria
outro universo recria
no êxtase da emoção.

Estilhaça a hora morta,
grita, canta, rejubila,
na perpetuação do vento,
nos sulcos do sentimento
a alma leve e tranquila.

No mais perfeito momento
resta o suspiro fundo.
Todo o instante paralisa
ao doce beijo da brisa.
Cessam os rumores do mundo.

Marilia Abduani

Maresia

Acalentar o mistério
afogar-me em maresia
a angústia da saudade
no improviso do meu dia.
O gemido, o orgasmo
da manhã que principia.
Prematura realidade
arremedo de alegria.

Só quem colhe a tempestade
sabe a voz da calmaria
e no tom da ansiedade
vence a farpa da alegria.
No bojo da eternidade
o beijo da ventania.
Pelo seio da verdade
jorra o sêmen da poesia.

Marilia Abduani

O que busca por deserto

O que busca por deserto
não conhece a noite fria,
não sabe o caminho certo
que chega ao raiar o dia.
Reconhece a realidade
da voz da monotonia
a angústia do céu coberto
por estrelas da agonia.

O que busca por deserto
só acerta a sintonia
das ondas sonoras do tempo
cruzando a estrada fria.
Amarga a sua saudade,
o peso da nostalgia.
O agreste da tempestade
de suas noites vazias.

O que busca por deserto
sonha na noite sombria.
Corpo despido e inerte
no lençol da zombaria.
Fustiga a serenidade
onde a aurora reluzia
suspensa na eternidade
sem o verbo da alegria.

O que busca por deserto
viaja na ventania
reescreve a sua história
pelas mãos da letargia.
Não pressente a claridade
por onde o amor fremia.
O que busca por deserto
migalha a vida vazia.

Marilia Abduani

DESERTO

Sobre a liquidez do mundo
eu adormeço e desperto.
Sou o meu navio sem rumo
nas águas do mar deserto

As estrelas que eu persigo
cochilam no céu aberto.
Na eterna noite vazia
jaz o meu sonho incerto.

Sobre a palidez da alma
a dispersa realidade
de seguir assim a esmo
nos atalhos da verdade.
Viver não tem meio termo
Cai o sol e já é tarde.

Marilia Abduani

Torrente

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desencantar o mistério
da calmaria do mar,
da boca da maré-cheia,
dos fragmentos de areia
no ventre virgem do olhar.

Desenrolar o novelo
do sol a se declinar.
Sentir o beijo das águas,
torrente de dor e mágoa,
em meu barco a naufragar.

Tocar o céu da montanha,
como um pássaro voar...
Ser da sombra a claridade,
e da mentira a verdade
ser para a noite o luar.

Tecer as teias da vida
com as linhas do perdão.
Bordar de azul a esperança,
cerzir de luz a aliança
entre a loucura e a razão.

Marilia Abduani- 5 de nov de 2010

 
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