A salmoura da saudade
solta um fio de esperança.
O novelo da ansiedade
no desenlace da infância.
Desnudam lagos e rios
meu tempo é de navagar
por rumos,novos desvios,
espasmos de luz no olhar.
A boca da liberdade
libera o pólen da vida
alimenta a claridade,
semente de luz vestida.
Destrava as portas antigas
retona do breu e aflora.
A vida passa tão breve
no descompasso das horas.
Marilia Abduani
Descompasso
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Nostalgia
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
A alma desgarrada
circula doidamente
por onde o foge o rio
por onde dorme o dia
na nostalgia presente.
No ocre do caminho
a rosa inquieta jaz.
Cores desconhecidas
calma desvalida
andrógino frio mordaz.
Teias de aranha no teto
cobrem o baço caminho
por onde o sono lateja
por onde transpiram, gotejam
lágrimas, sangue e vinho.
Todo o suor derramado
desce , espesso e quente
por onde a esperança some
por onde a boca da noite
mastiga a sede e a fome.
Marilia Abduani
Reticências.
Logo serão reticências
essas usuras da alma,
os açoites de corrente,
o vento lambendo os dentes
da terra estorricada.
Abduzida, a saudade,
bola de fogo ardente,
nos sustenidos da noite
estremunhando a mente.
Logo serão reticências
os olhares impassíveis
a negra semeadura
da alma, o incesto e a loucura
dos muros intransponíveis.
Entrecortada a verdade,
ave de asas quebradas,
enternecida se parte:
rastilho de eternidade.
Marilia Abduani
Anseio
A paz que me cabe é pouca.
A luz que me guia é baça.
A voz que me fala é rouca.
O chão que me prende é incerto
A minha alegria, rasa,
Meus braços, pó do deserto.
Meu grito, anseio guardado.
Nen quente nem frio, é morno
o meu coração decepado.
Marilia Abduani
Limpeza
Enquanto dispara o tempo
faço uma limpeza em meu interior
As mechas do sentimento
mostram o que fui e o que ainda sou.
No cofre do pensamento
guardo as saudades do que eu amei.
As marcas todas deixadas
na estrada por onde andei.
Enquanto dispara o tempo
faço reflexos na emoção
e faço caras e bocas
para fugir desta solidão.
As rugas são só cansaço
mas os meus sonhos ainda vão
por entre mechas, reflexos,
colorindo o meu coração
Marilia Abduani
Viagem
terça-feira, 31 de agosto de 2010
O eixo do esquecimento
segura a barra do dia.
O gesto e o sentimento
girando na ventania.
Beijos de lua clara,
grão de areia no sal.
E assim meu sonho viaja
a espera do ato final.
O eixo do pensamento
distante do que não vejo,
carente do que não sabe
descrente do que não vejo.
O medo se agarra às pedras
a procura de um caminho.
O espinho não fere a rosa
nem foge a ave do ninho.
O eixo tosco da vida
é que move a nossa coragem
e molda o nosso destino
pelo prazer da viagem.
A névoa me acaricia
e move a minha canoa.
O eixo da poesia
me guia, é livre e voa.
Marilia Abduani
música:Claudio Chaves
Crepúsculo
domingo, 29 de agosto de 2010
No atar do verso
a formação do poema.
O crepúsculo beija as pedras
abre portas,
e entra em nós.
Esperança frágil, dispersa.
O rio de palavras escorre e lava as ruas.
A grande noite acena
e seca a primeira lágrima.
É quando rompem-se os espinhos do tempo.
A poesia desata-se da rosa e enfeita o chão
por onde os nossos olhos fogem...
por onde os os nossos passos vão.
Marilia Abduani
Bruma
Eu me desenho oceano
nas marés intransponíveis
no prazer inesgotável
de viver e de cantar.
Eu me reservo sonho
e me descubro gigante.
Reluzente diamante
fertilizando o luar
Eu me descrevo leque
que abre-se : bruma leve
lenço bordado ao ar.
Equilibrando o meu tempo
no fio do pensamento
num raio de luz solar.
Eu me sublimo na espera
de pressentidas estrelas
riscando a inércia das horas.
É quando a noite fenece
na nostalgia sem prece.
A alma,súbita, aflora.
Marilia Abduani
Espelho do tempo
O espelho do tempo
mostra marcas e rugas,
apascenta as dores que pairam sobre as nossas cabeças.
O canal do tempo
indica um mundo novo, digere a ansiedade, adormece a fome,
desce as escadas.
O tempo é névoa que nos toca, circunda e acaricia.É indócil como o soluço,
imponderável como o mar.
Traz em seu dorso o mormaço, desafina o instrumento do espírito, a tudo cicatriza.
O espelho do tempo parte-se, esfacala-se
e paralisa.
Marilia Abduani

