Descompasso

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A salmoura da saudade
solta um fio de esperança.
O novelo da ansiedade
no desenlace da infância.
Desnudam lagos e rios
meu tempo é de navagar
por rumos,novos desvios,
espasmos de luz no olhar.

A boca da liberdade
libera o pólen da vida
alimenta a claridade,
semente de luz vestida.
Destrava as portas antigas
retona do breu e aflora.
A vida passa tão breve
no descompasso das horas.

Marilia Abduani

Marilia Abduani no Jornal a Voz de Maricá RJ

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nostalgia

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A alma desgarrada
circula doidamente
por onde o foge o rio
por onde dorme o dia
na nostalgia presente.

No ocre do caminho
a rosa inquieta jaz.
Cores desconhecidas
calma desvalida
andrógino frio mordaz.

Teias de aranha no teto
cobrem o baço caminho
por onde o sono lateja
por onde transpiram, gotejam
lágrimas, sangue e vinho.

Todo o suor derramado
desce , espesso e quente
por onde a esperança some
por onde a boca da noite
mastiga a sede e a fome.

Marilia Abduani

Reticências.

Logo serão reticências
essas usuras da alma,
os açoites de corrente,
o vento lambendo os dentes
da terra estorricada.
Abduzida, a saudade,
bola de fogo ardente,
nos sustenidos da noite
estremunhando a mente.

Logo serão reticências
os olhares impassíveis
a negra semeadura
da alma, o incesto e a loucura
dos muros intransponíveis.
Entrecortada a verdade,
ave de asas quebradas,
enternecida se parte:
rastilho de eternidade.

Marilia Abduani

Anseio

A paz que me cabe é pouca.
A luz que me guia é baça.
A voz que me fala é rouca.

O chão que me prende é incerto
A minha alegria, rasa,
Meus braços, pó do deserto.

Meu grito, anseio guardado.
Nen quente nem frio, é morno
o meu coração decepado.

Marilia Abduani

Limpeza

Enquanto dispara o tempo
faço uma limpeza em meu interior
As mechas do sentimento
mostram o que fui e o que ainda sou.
No cofre do pensamento
guardo as saudades do que eu amei.
As marcas todas deixadas
na estrada por onde andei.

Enquanto dispara o tempo
faço reflexos na emoção
e faço caras e bocas
para fugir desta solidão.
As rugas são só cansaço
mas os meus sonhos ainda vão
por entre mechas, reflexos,
colorindo o meu coração

Marilia Abduani

Viagem

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O eixo do esquecimento
segura a barra do dia.
O gesto e o sentimento
girando na ventania.
Beijos de lua clara,
grão de areia no sal.
E assim meu sonho viaja
a espera do ato final.

O eixo do pensamento
distante do que não vejo,
carente do que não sabe
descrente do que não vejo.
O medo se agarra às pedras
a procura de um caminho.
O espinho não fere a rosa
nem foge a ave do ninho.

O eixo tosco da vida
é que move a nossa coragem
e molda o nosso destino
pelo prazer da viagem.
A névoa me acaricia
e move a minha canoa.
O eixo da poesia
me guia, é livre e voa.

Marilia Abduani
música:Claudio Chaves

Crepúsculo

domingo, 29 de agosto de 2010

No atar do verso
a formação do poema.
O crepúsculo beija as pedras
abre portas,
e entra em nós.
Esperança frágil, dispersa.
O rio de palavras escorre e lava as ruas.
A grande noite acena
e seca a primeira lágrima.
É quando rompem-se os espinhos do tempo.
A poesia desata-se da rosa e enfeita o chão
por onde os nossos olhos fogem...
por onde os os nossos passos vão.

Marilia Abduani

Bruma

Eu me desenho oceano
nas marés intransponíveis
no prazer inesgotável
de viver e de cantar.
Eu me reservo sonho
e me descubro gigante.
Reluzente diamante
fertilizando o luar

Eu me descrevo leque
que abre-se : bruma leve
lenço bordado ao ar.
Equilibrando o meu tempo
no fio do pensamento
num raio de luz solar.

Eu me sublimo na espera
de pressentidas estrelas
riscando a inércia das horas.
É quando a noite fenece
na nostalgia sem prece.
A alma,súbita, aflora.


Marilia Abduani

Espelho do tempo

O espelho do tempo
mostra marcas e rugas,
apascenta as dores que pairam sobre as nossas cabeças.
O canal do tempo
indica um mundo novo, digere a ansiedade, adormece a fome,
desce as escadas.
O tempo é névoa que nos toca, circunda e acaricia.É indócil como o soluço,
imponderável como o mar.
Traz em seu dorso o mormaço, desafina o instrumento do espírito, a tudo cicatriza.
O espelho do tempo parte-se, esfacala-se
e paralisa.


Marilia Abduani

 
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